Assassinato ocorrido no Brasil em 1958
O Caso Aída Curi refere-se ao assassinato de Aída Jacob Curi, de dezoito anos, ocorrido no dia 14 de julho de 1958, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Aída foi levada à força por Ronaldo Castro e Cássio Murilo ao topo do Edifício Rio Nobre, localizado na Avenida Atlântica, onde os dois rapazes foram ajudados pelo porteiro Antônio João de Sousa a abusar sexualmente da jovem. De acordo com a perícia, Aída foi submetida a pelo menos trinta minutos de tortura e luta intensa contra os três agressores, até desmaiar.
Para encobrir o crime, os agressores atiraram a jovem do terraço, no décimo segundo andar do prédio, tentando simular um suicídio. Aída faleceu em função da queda.
Houve três julgamentos. Ao final, Ronaldo Castro foi inocentado da acusação de homicídio, sendo condenado apenas por atentado violento ao pudor e tentativa de estupro. Sua pena foi de oito anos e nove meses. O porteiro Antônio Sousa também foi inocentado da acusação de homicídio, mas condenado pelas outras acusações, tendo posteriormente desaparecido. Nada mais se soube sobre ele.
Já Cássio Murilo, menor de idade à época do crime, foi condenado pelo homicídio de Aída e encaminhado ao Sistema de Assistência ao Menor (SAM), de onde saiu diretamente para prestar o serviço militar.
Aída Jacob Curi (Belo Horizonte, 15 de dezembro de 1939 – Rio de Janeiro, 14 de julho de 1958) era a terceira dos cinco filhos de um casal de imigrantes da Síria, Gattás Assad Curi e Jamila Jacob Curi, que pertenciam à Igreja Melquita Católica.
Aos cinco anos, Aída perdeu seu pai, o que fez com que sua mãe se mudasse para o Rio de Janeiro para trabalhar. Na época, todos os seus irmãos — Nelson, Roberto, Maurício e Waldir — tinham menos de dez anos, com exceção do filho mais velho.
Dona Jamila seguiu com os filhos para a Escola Moreira do Riachuelo, onde permaneceram por oito anos. Aos seis anos, Aída foi encaminhada para estudar em um colégio de freiras espanholas da congregação Filhas de São José, o Educandário Gonçalves de Araújo, um colégio interno para meninas órfãs, localizado em São Cristóvão. Ela estudou ali nos doze anos seguintes.
Passado esse período, a jovem deixou o educandário para iniciar sua vida fora da instituição. Na época de sua morte, Aída realizava cursos de datilografia, inglês e português, além de trabalhar na loja de seu irmão.
Ronaldo Castro
Ronaldo Guilherme de Souza Castro, natural do Espírito Santo, morava e estudava no Rio de Janeiro e tinha dezenove anos na época do crime. Pertencia a uma família tradicional. Tinha má fama na vizinhança e na escola. Sempre foi mau aluno, tirava notas baixíssimas e foi reprovado em colégios. Fora expulso de instituições de ensino, acusado de diversas agressões e de ter participado do roubo de um carro pertencente à Secretaria de Agricultura. Também fora preso por indisciplina quando serviu no Exército.
Uma prima de Ronaldo, Mariza Eneider Castro, relatou que o jovem era devasso, que a fez passar por vexames diversas vezes e que, além disso, era ladrão. Segundo ela, Ronaldo cometeu furtos de joias e dinheiro em uma pensão na Lagoa Rodrigo de Freitas. O crime foi descoberto, mas o dinheiro de seu pai teria silenciado a polícia e indenizado as vítimas. Mariza afirmou ainda que, certa vez, em Vitória, Espírito Santo, o primo tentou entregá-la por vinte mil cruzeiros a um homem conhecido como “Mãozinha”, ficando dez mil para ele e dez mil para ela. Afirmou também que o pai de Ronaldo encobria as atitudes do filho.
Cássio Murilo Ferreira
Era sobrinho do síndico do prédio onde ocorreu o crime. Já havia sido expulso do Ginásio do Alferes por mau comportamento e também de outro colégio por tentar levantar as saias das garotas. Já teria arrombado a porta de um prédio vizinho ao que morava para roubar uma lambreta. Cássio era menor de idade na época do crime, com dezesseis anos.
Antônio João de Sousa
Era o porteiro do Edifício Rio Nobre, local onde ocorreu o crime. Tinha vinte e seis anos na época. Pouco se falou sobre sua vida pessoal.
No dia 14 de julho de 1958, Aída caminhava com uma colega na Rua Miguel Lemos, após sair da aula do curso de datilografia na Escola Remington, quando as duas foram abordadas por alguns rapazes: Ronaldo Castro, de dezenove anos, Cássio Murilo, de dezessete anos, e o porteiro Antônio Sousa, de vinte e sete anos.
Em determinado momento, Aída afastou-se da amiga e foi tentar recuperar objetos que lhe foram tomados pelos jovens — seus óculos e sua bolsa, onde estava o dinheiro para a condução. A estratégia utilizada pelos rapazes era usar os pertences da jovem para atraí-la ao prédio, o Edifício Rio Nobre, localizado na Avenida Atlântica.
Tratava-se de uma violência sexual premeditada — à época conhecida como “curra”. Segundo testemunhas, Aída foi puxada para dentro do elevador e, aos gritos, levada até o topo do prédio. Um jornal da época noticiou que foi em um apartamento do décimo segundo andar, ainda em fase de acabamento, que ocorreu a luta dos agressores para imobilizar a jovem.
Ronaldo e Cássio foram ajudados pelo porteiro do prédio, Antônio Sousa. Durante cerca de trinta minutos, Aída foi espancada com grande violência, além de os agressores tentarem estuprá-la. A vítima teria desmaiado em razão da exaustão física. Em seguida, seu corpo foi lançado do terraço, com o objetivo de simular um suicídio.
De acordo com o laudo médico da necrópsia, realizada pelo médico-legista Mário Martins Rodrigues, do Instituto Médico Legal, Aída morreu virgem, não tendo o abuso sexual sido consumado. Ainda segundo o laudo, o corpo da vítima apresentava escoriações e equimoses provocadas por unhadas e socos, além de sinais de tentativa de estrangulamento e ferimentos de defesa.
As roupas de Aída foram examinadas nos laboratórios do Instituto de Criminalística do Departamento Federal de Segurança Pública. Com o objetivo de reconstituir a cena do crime, os peritos constataram que, durante cerca de trinta minutos, a jovem foi submetida a cruéis sofrimentos, violências e espancamentos.
Os peritos criminais deixaram claro em seus relatórios que, para levar Aída ao estado de exaustão, um único agressor, mesmo fazendo uso de muita violência, não seria suficiente. Seriam necessárias pelo menos duas pessoas agindo simultaneamente para espancá-la até o desmaio. O médico-legista Mário Martins Rodrigues declarou que não encontrou na vítima nenhum estado de debilidade orgânica e que a jovem não seria levada com facilidade ao estado de estresse, ou seja, de exaustão total.
Ronaldo Castro alegou ter deixado o prédio para se encontrar com uma moça chamada Zilza Maria Fonseca às 20h15, antes de o corpo de Aída ter sido lançado do terraço. No entanto, o perito Murilo Vieira Sampaio calculou o tempo de duração do crime no terraço com base na cronometragem feita durante a reconstituição do caso. Essa cronometragem demonstrou que Ronaldo não poderia ter deixado o local no horário alegado, pois às 20h20 ele ainda estava rondando o Edifício Rio Nobre ao lado de Aída, tentando encontrar um local para levá-la.
Diversas testemunhas afirmaram ter visto Ronaldo com Aída nesse horário. Uma delas, Luiz Beethoven Cabral Leme, relatou que se encontrava na Rua Miguel Lemos acompanhado de duas jovens, Suely Weydt e Ivani Prado, quando perguntou as horas a Amaury Freire, cabo do Forte de Copacabana. O horário informado foi 20h20. Pouco depois, os três viram Ronaldo passar ao lado de Aída.
Suposto suicídio
A defesa apresentou a versão de que Aída teria cometido suicídio, jogando-se do décimo segundo andar para fugir do ataque de Ronaldo Castro, Cássio Murilo e Antônio Sousa, o porteiro. Entretanto, havia diversos indícios que desmentiam essa versão e indicavam que a jovem havia sido assassinada.
Entre as evidências estava um lenço manchado de sangue encontrado na bolsa da vítima. A necrópsia revelou ferimentos nos lábios em função de uma bofetada desferida por Ronaldo, fato confirmado pelo próprio acusado. Além disso, Ronaldo confessou em juízo ter rasgado a saia e todas as roupas íntimas de Aída. A anágua da jovem foi encontrada totalmente ensanguentada.
Outros indícios eram os ferimentos puntiformes e em semicírculo no rosto da vítima, cujo diâmetro coincidia com o do anel usado pelo porteiro. Ainda assim, tais provas foram desprezadas pelo júri. Na parede externa do parapeito do terraço, os peritos encontraram marcas deixadas pelas sandálias de Aída, que teriam raspado na parede quando ela foi jogada do alto, comprovando que ela não havia se atirado. O corpo caiu rente ao edifício.
Alterações na cena do crime
Havia indícios de que os criminosos alteraram a cena do crime. Os livros de Aída caíram ou foram colocados próximos ao corpo da vítima, como se ela tivesse saltado do prédio segurando-os. Contudo, era improvável que a jovem ainda estivesse com os livros nas mãos após cerca de trinta minutos de violência e luta intensa contra três agressores.
Falso testemunho
O pai de Ronaldo, Edgard Castro, teria contratado uma jovem chamada Zilza Maria Fonseca para servir de álibi ao filho. Ela afirmou que conversava com Ronaldo em um banco da Avenida Atlântica no momento em que Aída foi jogada do prédio. No entanto, Zilza não compareceu ao julgamento. Em seu lugar, a defesa apresentou a testemunha Lecy Gomes Lopes, que declarou ter visto Zilza com Ronaldo no horário do crime.
Esse fato levantou questionamentos na sociedade: por que, em vez de Zilza, foi apresentada uma pessoa que teria visto Zilza? Segundo a revista O Cruzeiro, os depoimentos de Ronaldo e de Lecy eram contraditórios. Lecy afirmou que passeava com a filha e a empregada, sentou-se em um banco da Avenida Atlântica, em frente à Rua Djalma Ulrich, onde já se encontrava um casal, Ronaldo Castro e Zilza Maria Fonseca. Já Ronaldo declarou que caminhava com Zilza pela praia e que, ao chegarem ao banco, já estavam sentadas uma senhora, uma moça e uma criança de três anos.
Além disso, Lecy descreveu Zilza como loira, quando, na realidade, ela era morena. Lecy também afirmou que Zilza cantava uma música de Maysa que falava muito em “você”. A canção mencionada seria “Por causa de você”, gravada por Maysa apenas em 1959, após o crime.
Julgamentos
No primeiro julgamento, Ronaldo Castro foi condenado a trinta e sete anos e meio de prisão, sendo vinte e cinco anos pela morte de Aída e o restante por atentado violento ao pudor e tentativa de estupro. O porteiro Antônio Sousa foi condenado a trinta anos de prisão. Cássio Murilo, considerado o verdadeiro assassino, não pôde ser julgado por ser menor de idade.
A defesa recorreu e conseguiu um segundo julgamento, realizado em março de 1959. Durante esse julgamento, o advogado Romeiro Neto questionou o médico-legista Mário Martins Rodrigues sobre lesões encontradas nos seios de Aída, levantando dúvidas se seriam marcas de dentes. Diante disso, foi chamado o perito em odontologia Raimundo Rodrigues, da Faculdade Nacional de Odontologia, que realizou exames técnicos, confeccionou modelos em gesso e analisou as lesões.
O exame das arcadas dentárias de Cássio Murilo comprovou que ele não era o autor das dentadas encontradas no corpo da vítima. Quando restava examinar as arcadas dentárias de Ronaldo Castro e do porteiro Antônio Sousa, a perícia foi interrompida por ordem do juiz Souza Netto, que alegou não haver interesse no exame, pois considerava comprovado que Ronaldo não teria participado diretamente da morte.
Ronaldo Castro foi absolvido da acusação de homicídio, permanecendo apenas a condenação pelos outros crimes. O júri considerou Cássio Murilo o único responsável pela morte da vítima, eximindo também o porteiro de culpa. Por ser menor e inimputável, Cássio foi encaminhado ao Sistema de Assistência ao Menor (SAM), de onde saiu diretamente para prestar o serviço militar.
Alguns anos depois, Cássio Murilo foi acusado de matar um vigia de automóveis, fugiu para o exterior e teve sua pena prescrita. Há relatos de que teria sido assassinado em 1978, em um incidente.
Houve ainda um terceiro julgamento, no qual Ronaldo foi condenado a seis anos de reclusão por homicídio simples e tentativa de estupro. Após recurso do promotor Pedro Henrique Miranda, a pena foi aumentada para oito anos e nove meses. Após cumprir a pena, Ronaldo foi solto e, posteriormente, tornou-se empresário no Espírito Santo.
Cultura popular
O nome de Aída Curi é citado por Rita Lee na parte final da música “Todas as Mulheres do Mundo”, bem como na canção “Mônica”, de autoria de Ângela Ro Ro, que trata de tema semelhante.
Direito ao esquecimento
Em 2004, o programa Linha Direta Justiça, da Rede Globo, apresentou uma reconstituição do assassinato de Aída Curi. A exibição do programa levou a família da vítima a mover uma ação de indenização contra a emissora, sob a alegação de que a reapresentação do caso reavivava uma “sinistra notoriedade” que os perseguia havia décadas.
O pedido foi negado nas instâncias inferiores e, posteriormente, também pelo Supremo Tribunal Federal, em julgamento realizado em 11 de fevereiro de 2021. O processo ficou conhecido como a “Ação do Direito ao Esquecimento”. A decisão foi tomada por nove votos contra um. Segundo o entendimento da maioria dos ministros, o acolhimento do pedido abriria precedentes para o cerceamento do direito à informação e da liberdade de imprensa.
Ruas com o nome de Aída Curi
Aída Curi possui ruas com seu nome em diferentes localidades do Brasil:
Rua Aída Curi, na Taquara, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro (RJ);
Rua Aída Curi, no bairro Jardim Guanabara, em Queimados (RJ);
Rua Aída Curi, no bairro Raul Veiga, em São Gonçalo (RJ);
Rua Aída Curi, no centro da cidade de Ipirá (BA).
Referências
Monsenhor Maurício Curi. Caso Aída Curi – Versão da família.
O Assassinato de Aída Curi em Copacabana.
Direito ao esquecimento.
O direito ao esquecimento na sociedade da informação: o caso Aída Curi.
Tribunal do júri completa 200 anos: veja homicídios que chocaram o Rio.
Caso Aída Curi | Aida Curi.
Assassinato de 1958 é a causa do debate do direito ao esquecimento.
Há 47 anos: Absolvição polêmica de Ronaldo Guilherme de Souza Castro.
60 anos depois, Aída Curi ainda assombra.
Sem direito ao esquecimento.
Aída Curi: a tragédia que não quer ser esquecida.
52 anos da morte da jovem Aída Curi.
O júri oficializou a curra.
Prima do currador revela: Ronaldo além de tarado é ladrão.
Caso Aída Curi (BOCC – Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação).
Os crimes contra mulheres jovens que abalaram o país.
Por 9 a 1, Supremo decide que direito ao esquecimento é incompatível com a Constituição.

